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Raul Brandão
1867-1930
Escritor, jornalista e militar
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Raul
Germano Brandão nasceu a 12 de Março de 1867 no nº 12 da Rua da Bela Vista
(atual Rua de Raul Brandão), na Foz do Douro, localidade que marcou de forma
indelével a sua vida e obra, pelo mar e pelos seus homens. Era filho de
pequenos proprietários.
A infância e a adolescência foram
passadas no Porto, onde completou os primeiros estudos, nomeadamente no Colégio
São Carlos. Aqui colaborou, em 1885, na publicação da revista escolar O
Andaluz, criada "a favor das vítimas dos terramotos da Andaluzia", e
na qual participaram também João de Lemos, José Leite de Vasconcelos e Trindade
Coelho.
Seguidamente, frequentou a
Academia Politécnica do Porto,
entrando então em contacto com outros jovens aspirantes a escritores, entre os
quais se contavam os amigos da adolescência, António Nobre e Justino de
Montalvão.
Em 1888 ingressou na Escola do Exército, em
Lisboa, talvez para agradar aos pais ou, mais prosaicamente, em razão da
"lei de recrutamento irreversível".
Em 1889 esteve na formação do
grupo "Os Insubmissos" e da revista com o mesmo nome, que coordenou.
Em 1890 estreou-se como escritor
com a coletânea de contos naturalistas "Impressões e Paisagens". Logo
em seguida, participou ativamente em vários movimentos de renovação literária.
Com Júlio Brandão e D. João de Castro dirigiu a "Revista de Hoje"
(1895) e encetou uma notável carreira jornalística no "Correio da
Manhã".
Em 1896, depois de concluído o estágio de 10 meses na Escola Prática de
Infantaria, em Mafra, foi colocado em Guimarães, como Alferes no Regimento de
Infantaria nº 20. Na cidade berço conheceu Maria Angelina, com quem veio a
casar.
Mais tarde, foi transferido para
Lisboa. Nesta fase, o jovem escritor dedicou-se a reflexões metafísicas,
colaborou na composição do folheto "Nefelibatas" (1893) e aproveitou
os escritos no jornal "Correio da Manhã" para publicar, em 1896, o
livro "História de um Palhaço – Vida e Diário de K. Maurício",
reorganizado em 1926 com o título "A Morte do Palhaço e o Mistério da
Árvore".
Em Março de 1897 casou com Maria Angelina, com quem viveu um ano em Guimarães.
Seguidamente, transferiu-se para o Porto, voltando ao lugar onde nascera, a Foz
do Douro.
A escrita continuou a ocupar
lugar importante na sua vida. Em parceria com Júlio Brandão escreveu a peça
"Noite de Natal", representada no Teatro D. Maria, em 1899.
Em 1901 pediu nova transferência, desta vez para Lisboa. Na capital contactou
com intelectuais e anarquistas e empenhou-se na área do Jornalismo.
Nesta
fase, a sua existência dividia-se entre a escrita realizada na capital e a que
produzia no recolhimento da sua Casa do Alto, em Nespereira, nas proximidades
de Guimarães, a qual adquirira em 1903. Nesta habitação, não se dedicava apenas
à escrita, mas também à administração da sua propriedade. Este contacto direto
com o mundo rural despertou no escritor e no homem sentimentos de comiseração e
de pesar relativamente às agruras que marcavam a condição das comunidades
agrícolas. A partir daí, o tema principal da sua obra literária passou a ser o
problema de consciência perante os homens oprimidos e a análise de sentimentos
contraditórios (a simpatia pelos explorados e o egoísmo de um pequeno burguês),
presente pela primeira vez em "Os Pobres", no início do século XX
(1902-1903).
Em 1906 viajou pela Europa, na
companhia da esposa. Por volta de 1910 sofreu uma crise de depressão nervosa.
Em 1911 pôs fim à carreira
militar, reformando-se do exército no posto de Major, em 1912.
Com mais tempo para a escrita, começou a interessar-se pela História de
Portugal. Compôs a obra "El-rei Junot", em 1912, e redigiu "A
Conspiração de Gomes Freire", em 1914. Publicou "O Cerco do
Porto" na revista "Renascença", em 1915, uma obra atribuída ao
coronel Hugo Owen e Brandão, que este anotou e prefaciou.
Em
1917 deu à estampa a sua aclamada obra-prima, "Húmus", dedicada ao
amigo Columbano, que conheceu no final de Oitocentos e que lhe pintou dois
retratos.
A partir desses anos começou a passar os Invernos em Lisboa, cidade onde
conviveu com os intelectuais do grupo da revista "Seara Nova" (1921),
contando-se entre o grupo de fundadores deste movimento, juntamente com Jaime
Cortesão, Raul Proença e Aquilino Ribeiro, entre outros.
Neste período, também se dedicou
à dramaturgia. Em 1923 publicou o livro "Teatro", no qual compilou
"O Gebo e a Sombra" (representado em 1927 no Teatro Nacional),
"O Doido e a Morte" (representado em 1926 no Teatro Politeama) e
"O Rei Imaginário".
Em 1927 publicou "Jesus Cristo",
em colaboração com Teixeira de Pascoaes. No mesmo ano, Columbano pintou o
retrato do casal Raul e Angelina Brandão. Em 1929 publicou "O Avejão"
e o monólogo "Eu sou um Homem de Bem", na "Seara Nova".
Raul Brandão pretendeu tornar públicos quatro livros de trabalho de teatro; no
entanto, o projeto ficaria apenas pela publicação de um volume. Planeou,
igualmente, escrever "A História Humilde do Povo Português", da qual
os "Os Pescadores" constituiria o 1º volume, e ao qual se seguiriam
"Os Lavradores", "Os Pastores", "Os Operários".
Em 1924 realizou uma viagem aos Açores e à Madeira, que deveria fazer parte
desse plano e da qual resultou a edição da obra "As Ilhas
Desconhecidas", de 1926.
Em colaboração com a esposa escreveu "Portugal Pequenino", uma
narrativa para crianças, editada em 1930. A morte interrompeu estes projetos.
Raul Brandão viria a falecer em Lisboa, no dia 5 de Dezembro de 1930, com 63
anos. Em 1931 foi publicado, postumamente, "O Pobre de Pedir".
Raul
Brandão seguiu, como vimos, uma carreira militar. Mas foi, sobretudo, um grande
jornalista (no "Correio da Manhã", "Revista de Hoje",
"Revista de Portugal", chefe de redacção dos jornais "O
Dia" e "A República") e escritor, autor de uma extensa e
diferenciada obra literária (ficção, teatro e livros de viagem), marcada pelas
vertentes social, ética e religiosa e entrecruzada pelo patético e pelo
trágico. Pertenceu ao grupo dos "Nefelibatas" e à "Geração de
90" do século XIX e foi influenciado não só pelas correntes do Realismo,
do Naturalismo, mas também pelo Simbolismo e o pelo Decadentismo. Foi um homem
imaginativo e talentoso, mas passivo e isolado, características que, no
entender de muitos estudiosos da sua vida e obra, acabaram por fazer dele,
muitas vezes, um incompreendido.
(Universidade Digital /
Gestão de Informação, 2008)