A Constança tem um sonho. Um sonho que
nasceu assim, pequenino e silencioso, como nascem os sonhos das crianças. Todos
os dias cresceu um bocadinho. Cresceu na sala de aula, quando o Diogo escrevia
o O do nome na ponta da folha. Cresceu quando
a Joana dizia que o Diogo não sabia fazer nada. Cresceu quando os desenhos do
Diogo saíam da folha e se estendiam pela mesa fora. Cresceu no recreio, em
todos os recreios, quando o Diogo passeava sozinho pelo pátio, alheio a tudo e
a todos. Quando chegava a casa, a Constança enroscava-se no sofá com a Francisca,
a sua boneca preferida, ligava o Canal Panda e punha-se a sonhar. A mamã
desconfiava que não eram os desenhos animados que bailavam nos olhos da
Constança e perguntava:
– Sentes-te bem, filha?
– Sim, mamã – respondia ela, sem desviar
os olhos das imagens imaginadas.
Um dia, o «Sim, mamã» veio acompanhado de
duas lágrimas teimosas. A mamã deixou a Constança chorar, afagando-lhe o cabelo
e sussurrando-lhe carinhos. Com as lágrimas saíram as palavras, aquelas
palavras que se foram formando no crescer do seu sonho: que o Diogo fosse igual
a todos os outros meninos, que o O do seu nome fosse para perto do g, que
os seus desenhos ficassem bonitos e coloridos dentro do seu caderno, que no
recreio não houvesse mais passeios solitários… A mamã explicou à Constança que
o Diogo é um menino autista, diferente, como diferentes são todos os meninos e
meninas, porque todos são únicos. Únicos no seu crescer e sentir, únicos no seu
aprender, únicos no coração dos outros… A Constança entendeu e, limpando as
lágrimas, disse:
– Sabes mamã, eu gostava que o Diogo
tivesse um caderno bonito, assim como o meu. Ele gosta muito do meu
caderno, pega sempre nele e acaricia as folhas. Às vezes, dizem que o caderno
do Diogo não está bem e eu sei porquê. É que o Diogo não cabe dentro dele.
A mamã sorriu e, abraçando-a, propôs-lhe
fazerem dois cadernos grandes: um para ela, outro para o Diogo.
O Diogo adora animais e a capa do seu
caderno é um oceano de golfinhos e peixinhos, tartarugas e corais, uma
savana onde os leões correm atrás das zebras, uma montanha onde as águias
fazem os ninhos, uma planície onde as borboletas pousam nas
espigas do trigo. A Constança também adora animais, mas o seu caderno é
diferente. É rosa como os sonhos, amarelo como o Sol e tem a Polly e os amigos,
um castelo e muitas fadas. Agora, no recreio, sentados no chão, tocam nas capas
dos cadernos. A Constança abre os portões do seu castelo encantado, pega na mão
do Diogo e, juntos, correm pelos jardins e voam nas asas das borboletas.
Ana Mafalda Damião
(Professora de Português e de HGP)